2 notes
Inocular liberdade. Viciar veias traumatizadas.
Cortejaram a minha alma. O que é falar de propostas de produção e não falar de amor? Propuseram-me eloquências e eu não soube responder. Calei-me, feito um gago. Travei.
Pensei por anos e fui hiperbólica ao citar fatos. Mas eu citei, por mais forte que tenha sido o nó em minhas cordas vocais eu disse tudo e denunciei cada abuso que as minhas palavras aleijadas haviam sofrido durante todo esse tempo.
Eu supus que algumas reações seriam mais irrefutáveis, mas falhei. Incrível o peso que as palavras adquirem quando lançadas veementemente. Os hematomas em nossa face devem fazer gosto para quem as anuncia. E fadas fazem sexo na boca de quem nos fere. E dói. Dói ouvi-las gozando alegria.
Então de manhã, quando o contexto já é aparentemente irrelevante, meu rosto sai de casa nu e seus roxos justificam minhas previsíveis facadas, cada marca de sangue em minha face daria razão ao itinerário dos meus dedos pianistas. O prenunciado itinerário.
Nunca pensei que fosse um dia para Santa Catarina e enfrentaria uma tempestade, e é para lá que eu fui escrever, daquele feriado em diante, em todos os recessos.
Afinal, não há vingança mais bela que a circunspecta. Não há melhor sensação que a acusação oculta. Dentro de uma das mil e trinta páginas de seu mais novo livro de prosa. E há de ser bela. Aconchegante a ponto de ser designado rotina. De ser desejado ser rotina.
Desde que eu conheci o papel, a caneta e todo o estro poético que tem perturbado minha falta de tempo, nada tem sido mais tão difícil. Eu sempre soube, mas nunca tive esperanças. Desejo sexual não passa de definição pejorativa. Eu sou livre para denunciar a realidade com apenas uma receita que envolve minha alfabetização e meu vocabulário. Nada mais. Talvez um pouco das minhas lembranças, juntamente com toda a minha revolta. Eu vou me assentar para escrever, vou me assentar numa cadeira macia, sem nenhum prego. Nem mesmo a tinta da minha pena terá coragem de me tolher. Não dessa vez. Luísa Mendonça
277 notes
"Não havia notado, mas faz muito frio por esses dias na minha cidade florida.
Tenho um grande apreço pelos hábitos da minha mãe, mas esqueço-me deles quando me impede de tomar café. Gozado como as coisas vão tomando um rumo incerto na vida da gente… Eu nunca fui dessas pessoas viciadas em algo, e até mesmo criticava tal coisa, mas pego-me esvaziando as garrafas quase todos os dias, e quando sou impedida fico mais mal humorada e sovina do que já sou. Essa mania de gente letrada deve ter me acometido de súbito e eu não reparei. De qualquer forma, faz muito frio na minha cidade e tem sido bom ocupar-me apenas em certificar que ainda há café na xícara.
(é aquele velho hábito costumeiro: quando se sente incapaz de iniciar a prosa, mete-se a devanear sobre a coisa mais trivial possível).
Tenho praguejado constantemente a vida por ter permitido-me chegar ao ponto que cheguei. As circunstâncias não me transtornam a alma, muito pelo contrário, são as mesmas que me lançam aos olhos o pingo de verossimilhança que existe entre mim e a realidade. Lembro-me de que, em alguma dessas minhas andanças dentro do mundo, rabisquei na beirada de um jornal, após um aborrecimento por uma ofensa nada cortês, algo como “tenho certeza de que sou inconcebível ao mundo”, e é exatamente esta frase que me coloca os pés ao chão, obrigando-me a ver o borrão que sou.
(o céu está nublando, acredito que logo choverá, e faz frio…).
Cecília perguntou-se em qual espelho ela teria esquecido sua própria face, eu me pergunto se já me fitei por inteira n’algo. Tenho travado batalhas, guerras inteiras comigo mesma durante o sono, e não me é dificultoso dar continuidade nelas no decorrer do dia. Tenho visto-me assim amiúde. Eu poderia culpar a idade, se a tivesse de sobra; poderia culpar a adolescência, se ela alguma vez tivesse me tirado a sanidade… A quem culparei? O fardo de carregar em mim uma alma dessa estirpe me dói. Dói por reconhecer a beleza na simplicidade, mas não enxergar em alguém algo que me fuja do controle, que me perturbe a paz, que não seja maçante e tão previsivelmente enfadonho.
(é, com certeza é dia de chuva, e daquelas que inundam tudo, porque com o frio que faz…).
Às vezes é bom sair um pouco do lirismo e sentir-se um poema épico barroco. Deixar de corromper-se pela intimidade exposta no madrigal e ler seu próprio paradoxo. Sou tão um-pouco-completamente-quase-toda-desconexa que, sei que as perguntas acerca do meu próprio âmago não serão sanadas por ninguém além da própria alma, e sei também que o dia em que as respostas forem dadas, ela fenece. É desse jeito, com metáforas fracas e um engasgo no peito, que vivo trilhando o caminho da felicidade disfarçada de tristeza, porque ter felicidade plena é impossível quando…
… Quando faz tanto, tanto frio.
"
-Outono de Mim. (via outonodemim)(via outonodemim)
102 notes
Não é pra ser lido,
Este é o sentimento de quem é deixado de lado:
Entendeu, nada. Isso mesmo, este espaço branco que você pode ler muito bem, este vazio que preenche uma boa parte do meu âmago, do meu esôfago, da minha bexiga. Vamos parafrasear tudo, não importa, se eu for para o inferno por causa disso vocês também irão porque estão lendo: Sou feito de vazios; chovia uma triste chuva de resignação; se me encontrar, devolva-me; o amor é um cão dos diabos.
Chega de penúrias. Por que teimas em ler o que não é pra ser lido? Porque teimo em descrever o que não é pra ser escrito? É pra ser sentido. O toque ávido por um sorriso que abrace-me, a vontade incessante de fazer parte, de alguma forma, do que sei que nem de longe estou tão perto. Acabei de escrever uma frase longa que poderia ser resumida em: você se esquiva de mim. Que ridículo, esse meu gosto efêmero de prolongar tudo, até palavras não lidas.
Sei, sei, todas minhas expectativas deste gelo ser proposital, desta sua ausência na verdade ser um querer bem - afastado - foram frustradas. Não é nada disso, percebo que não, mas não tenho certeza, então por favor, diga-me, conte-me o que és, porque és, quem o fez. Quero acabar tudo isso de uma vez, sem drogas, sem apelo para próximos parágrafos. Venha até mim agora, hoje, e fale tudo. Fale o que no fundo eu sempre imaginei e que temo que me digas: você não gosta de mim.
Pensando bem, é melhor você não falar mesmo.
Júnior Cunha
(Source: o-padre, via soprosdovento)
69 notes
Dança dos Corações Mortos
A dança estava rápida, sinistra. Os passos eram equivocados e me surpreendiam a cada nova pausa. Segurava sua cintura com firmeza enquanto ela coloca suas palmas macias sobre meus ombros. Dançávamos sorrindo um para o outro, movimentando a luz de nossos olhos de maneira sutil. Éramos nós, apenas nós e a dança que se misturava no meio, delineando a noite.
E enquanto a música penetrava, sonhei acordado. Esqueci que estava no meio do palco, as pessoas me olhando ao redor. Sonhei com aquela noite encantada de trovões e piadas, enquanto ouvíamos a canção ritmar nossos olhares vagos e infantis, sabia que queríamos o mesmo: desatar esse cadarço que nos separava e emendar uma nova linha entre nós, forte, duradoura. Quando te puxei para o canto e te beijei. Quando te amei, quando senti. O sonho se dissipou e voltei a realidade.
Todos olhavam para mim, espantados, calados. A música parou abruptamente, uma menininha de olhos azuis com uma presilha no cabelo recuou com um grito, ouvi passos pesados correndo para fora, para as estrelas. E eu tinha lágrimas nos olhos.
Estava dançando com um cadáver, o rosto pálido e enegrecido retumbou para trás quando lhe soltei, o vestido puído já fedia, era vento, era sonho perdido. E minha alma voltou ao passado, voltei ao dia do beijo, do sentimento. Na noite chuvosa, quando o último trovão eclodiu, dei meu último beijo. Amado. Construímos uma nova linha entre nós, mas ela era fraca, partiu-se. Naquele dia era a festa de despedida dela, festa da solidão. Ela foi-se para uma nova geografia, distante do meu coração. E eu nunca mais a vi.
Estou novamente no caos da dança e olho para o chão. Não vejo cadáver, não vejo nada. Escuto gritos, aberrações. Sou eu, deitado ali, sangrando, destruído, morrendo. Ainda saía uma leve fumaça do cano da arma recém usada. Minha última visão foi de passos arrastados, alguém numa capa preta, alguém sem feições, sem rosto, alguém morto que disse: Quero dançar com você.
(Source: o-padre, via soprosdovento)
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Da vida que só a gente vê, ouve, sente e dança
Houve o corte no dedão do pé, o calo no calcanhar e uma minúscula mancha de sangue na meia. Houve o suor, o cansaço e a moleza de um corpo castigado – de prazer – no salão. E, agora, meu querido, não entoam mais nossa música – nem som algum. Abrocha teus lábios e silencia a respiração: Ouve, ouve – o vazio. Das paredes que emudeceram, da vitrola que calou os discos, do baile que deixou de respirar felicidade e agora é suposta ausência de beleza. Ouve, ouve – o escuro. Dos que explodiram o peito em risos e agora descansam a alma pesada, do rapaz que encantou o coro de donzelas – mas nenhuma foi capaz de cativar suas meninas –, da cara taça que alguém deixou cair e empurrou os cacos para um canto sem luz. Ouve porque ninguém mais reflete sobre o que já perdeu a graça nem abraça de peito aberto essa aflição que só quem infla a sensibilidade conhece. Só a gente. Só a gente que observa os resultados, que dedica tempo às conseqüências, que saboreia de tudo – de bom e de amargo. Só a gente que mistura o mundo e vai do céu ao inferno, ou ao purgatório, ou ao intocado limbo em dois tempos. Quem vive só da bondade e não conhece a aspereza da rudez não sente, não brota, não aprende. Não entra em ordem nem acumula experiência nas costas. Disseram naquele dia que fazemos tempestade em colher de chá e vibramos ao ver um vaga-lume, e eis aqui nosso fundo falso de gaveta: Sentimento dolorido também é sentimento, visão turva também é visão, passo com espinho na planta do pé também é passo. Mas ninguém sabe o prazer de sentir os opostos, ninguém sabe driblar o comum, ninguém consegue enxergar além dessa viseira social. Só a gente. Só a gente sabe rodar uma coreografia alucinada e alucinante e bailar ao som de nada e gargalhar sem motivo aparente. Só a gente sabe enganar o balé da vida.
Claudia Calado
9 notes
"Todas as manhãs de sol ia para a praia, apertada num maiô azul. Por onde passasse, deixava atrás de si olhares de homens colados a suas pernas douradas, a seus braços frescos. Os fornecedores vinham para a porta, os velhos para a janela, as ruas transversais movimentavam-se extraordinariamente à sua passagem cotidiana. Deixava uma sensação perfeita de graça e leviandade no espaço. Era loura, mas podiam-se ver massas castanhas por baixo da tintura dourada do cabelo. Trazia sempre o roupão meio aberto - e o vento da praia o enfunava alegremente, deixando-lhe à mostra as coxas vibrantes, cobertas de uma penugem tão delicada que só mesmo a claridade intensa deixava ver. Não tinha idade precisa. O corpo era de vinte anos, no entanto os cabelos pareciam velhos, mortificados de permanentes, e faltava-lhe aos olhos verdes a luz da mocidade. Usava uns sapatinhos vaidosos, de saltos incrivelmente altos, que lhe afirmavam melhor a elegância um pouco mole, um pouco felina. Seu filhinho, um lindo garoto de três anos, ela o arrastava consigo naquelas longas passeatas pela areia, pois nunca deixava de perambular um pouco para receber, aqui e ali, galanteios nem sempre delicados, que a deliciavam.
Ficava sob uma barraca parecidíssima com ela, uma coisa colorida e fagueira, localizável de qualquer distância. Ali arrumava cuidadosamente seus pertences, esticava o roupão, acamava a areia com o corpo e depois se esfregava longamente de óleo, as alças do maiô caídas, o início do colo infantil bem desnudado, os dois pequenos seios soltos como limões. O garotinho ficava brincando por ali, ora em correrias, ora agachado ante a maravilha de uma concha, de um tatuí, de um pedaço de pau. Isso era o ritual de todos os dias, que lhe dava tempo para a vinda dos admiradores habituais. Chegavam invariavelmente, um após outro, uns rapagões torrados de sol, de tóraxes enxutos e carões bonitos, curiosamente parecidos, todos. Ela ficava deitada, os braços em cruz, afagando a areia, afagando a cabecinha do filho que, às vezes, lhe corria a trazer alguma descoberta. Os rapazes pintavam com o menino, alguns enfezavam-no, como a convidá-lo a ir brincar mais longe. Ela deixava, mole para reagir, e de vez em quando deitava um olhar complacente para a praia, a vigiá-lo quando o via um pouco longe. Mas o guri fugia das brincadeiras brutas dos rapazes e ela o esquecia, perdida em sua tagarelice, até que um mais ousado a forçava a um beijo rápido, entre a gargalhada dos demais. Contavam-se fitas de cinema, festas e mexericos de praia, jogavam peteca e uma vez ou outra os rapazes lutavam jiu-jítsu para ela, que se extasiava. Cada meia hora, corriam todos em bando para um mergulho coletivo, e ficavam brincando na água, sem se importar com os demais - os rapazes a empurrá-la, a pegá-la, ela gritando, se defendendo, batendo neles, uma delícia! Nessas horas o menininho chorava vendo se afastar a mãe. Mas ela voltava e o comia de beijos sempre consoladores. Na verdade, a vida naquela barraca de praia era a coisa mais inconseqüente e agradável da orla marítima.
E assim foi todo o verão. Só nas manhãs de chuva a praia perdia a sua figurinha loura, mas isso mesmo era razão demais para o encontro dos outros dias: ela, o menino e os rapazes de sungas curtíssimas, os tóraxes crus, a dar lindas “paradas” para ela ver, a pegar nela, a jogar peteca, a lutar jiu-jítsu. A jovem penca humana aumentou consideravelmente durante aquele período, e tudo não se passou sem uns dois ou três incidentes entre os atletas, inclusive uma briga feroz a que ela assistiu emocionada e que terminou por uma linda chave de braço com distorção muscular. Essa briga, naturalmente, provocou outras, em bares e festas de verão, mas que se passaram longe de seus olhos e que ela ouvia contar na praia. Muitas brigas provocou ela, com seu maiô azul e a sua infantil tagarelice, mas nunca ninguém poderia dizer que tivesse recusado um novo fã, desses que conhecem um da roda e depois, astuciosamente, se aboletam e passam a ser o preferido de duas semanas. E todos sempre adorando o garotinho, achando-o uma beleza, jogando-o para cima, coisa que o apavorava e fazia sempre correr para longe. Ela se zangava levemente, mas acabava rindo com as cócegas que lhe faziam os rapazes, com os tapas que levava. Comia o menino de beijos e depois se estirava voluptuosamente, centro de uma rosa de olhares que não disfarçavam o objetivo. Houve um dia em que um, meio de pileque, chegou a dar-lhe uma mordida na perna. Ela zangou-se de verdade, pegou o filhinho e foi para casa. Deixou atrás um ruído de vozes masculinas se interpelando com ar de briga. Ficou-lhe uma semana uma marca roxa em meia-lua, pouco acima do joelho.
Um dia, quase no fim do verão, estava ela, como sempre, com seu grupo a contar um baile a que tinha ido na noite anterior, maravilha de riqueza e bom gosto. O menino brincava junto às ondas, e os rapazes debruçavam-se todos, em atitudes elásticas, sobre o seu jovem corpo estirado, ouvindo-a tagarelar. Pois imaginassem: tinha sido servido um jantar americano, e cada convidado trouxera uma garrafa de uísque, e às dez horas apagaram todas as luzes do terraço para aproveitar a claridade do luar: tinha havido tanto pileque e se via cada coisa de espantar, puxa menino! cada beijo em plena sala! como ela não via desde as festas de carnaval…
Eram quase duas horas e a praia estava completamente deserta. Só a barraca colorida alegrava a hora vazia a ensolarada, recortada contra a espuma forte das ondas e o azul vivo do céu. Ela contava sua festa aos rapazes, inteiramente embebida nas recordações da noite. Foi quando chegou um pretinho correndo:
_ Moça, aquele menino não é da senhora?
Ela sentou-se:
_ É sim. Por quê?
O pretinho apontou:
_ O mar levou ele.
Os rapazes se precipitaram todos e se jogaram n’água.
Ela saiu atrás, numa corridinha frágil, os braços meio içados numa atitude infantil de pânico. As ondas enormes alteavam-se longe e se abatiam em estampidos de espuma até a praia. Depois refluíam.
Em vão. O mar levara mesmo o menino.
Os rapazes voltaram, incapazes de lutar contra os vagalhões e temerosos da correnteza.
Afrouxado sobre a areia branca, seu corpo fazia uma graciosa mancha azul.
"
-Vini de Moraes, “Conto Rápido”. (via abismoespargido)
42 notes
Soa como um sino rachado
- Mas de que são feitas as solidões?
“Quê?”, gritou um menino de olhar zangado. Foi descoberto e ninguém sabia. Deixa. Vamos para próxima.
- E as nuvens?
“Água”, respondeu uma garota de cabelo cacheadinho, emaranhado de pêlo de gato. Mas não era. Não é bem água. É mais que fios de cabelos brancos condensados com doce-de-leite. É bem mais algo que não se pode falar de tão raro e puro que é. Ela se atreve, em pensamento, a cutucar o céu com uma bengala. Tola, se desequilibra. Não se enconsta o céu assim, de repente. Tem todo um espaçamento que você não consegue atravessar, algo que pontes não conseguem completar. E no fundo não existe razão. Deixa.
- E os amores?
Todo mundo quis responder e por isso não faço voz de ninguém. Por que insistem? Por que se embebedam de clichês, de vidas jamas vividas e de chás aguados? Se o mundo fosse mais lento, mais iludível e se os pássaros, de quando em quando, dessem piruetas; por que vezes e vezes mais você falaria de amor? Por que não outros? Quebra o pescoço quando se olha para o lado, dói?
- Morte?
Ninguém respondeu. Porque ninguém quis, ninguém pôde. Porque existe alguma força maior, um lacre invisível que nos remete ao medo. Que nos prende mesmo-mesmo nós tendo asas. De nós sermos as asas. E eu não quero deixar, não quero esquecer. Quero deixar um lembrete na minha geladeira pra matar a minha fome com avisos. Dormiria com um olho fechado e o outro entreaberto. Eu viajaria por montanhas, por serras e abismos sem ter mesmo me lembrado de algo que fere. Eu não quero esquecer porque esquecer, se deixar levar é se jogar ao vento. Não tem volta, escapatória. E que todo mundo tirasse o chapéu para mim na rua, porque sou morte. Todo mundo me teme, me evita. Ninguém nunca atenderia as minhas chamadas no telefone porque eu poderia surgir com um capús preto só para me disfarçar, farçar. Mas ninguém perceberia que eu sou contrária a isso tudo, queria que a minha voz ecoasse como um berro num holofote. Ninguém poderia me derrotar no xadrez porque eu sou a parte principal, a rainha, o rei, o xeque-mate. O fim da linha. O fim da estrada. E no fim da minha rua, teria um penhasco com uma placa ‘cuidado’. Cuidado. Soa estranho? Eu sei. Mas não posso e não quero esquecer. As coisas são e sempre serão uma via de dúvidas, um viaduto mal arrumado com intenção nenhuma e nós sempre queremos descobrir traços que não existem.
Então as perguntas param. Mas eu não paro, não sou pergunta.
Nem resposta.
Amanda Lua
(Source: hiades)
34 notes
Conto de fadas.
“Olhe só, não não, não olhe nada, feche os olhos e deixa eu puxar teus lábios. É que faz um mês que a gente se revirou em coisas estranhas, elas são só nossas, ainda que estranhas, eu gosto delas, gosto porque elas combinam com a gente.
Tive um sonho bonito que só, olhe, não não, continue de olhos fechados, se eu corar demais com teu olhar perco a coragem de lhe contar meus segredos. Pois bem, lá estávamos nós, obviamente, ah, mais quem sabe, talvez o amor estivesse junto, nos empipocando (risos), que palavra mais engraçada, mas voltando, o amor poderia estar lá conosco. Já isso não sei, era um sonho, e eu só prestava atenção na moça linda que aparecia nele.
Olhe agora, bom, espere, deixa eu te ver por mais um minuto. São esses contos de fadas que me iludem, me desculpe, eu ainda vivo neles, igual á uma criança perdida, me achando perdidamente lúcida. Pois bem, mas é assim que sobrevivo, com qualquer bom domingo que me der. Lá de longe se enxerga a felicidade dizem, mas eu acho, venha cá, tenho de falar baixinho agora, eu acho… Que a felicidade mora aqui dentro, vá, ponha a mão no peito, ela mora bem aqui, e de vez em quando esquecemos de exerga-lá. Mas não conte a ninguém viu, é de obrigação as pessoas aprenderem a serem felizes, de verem.
Pronto, pode abrir os olhos agora. Ah, como você é linda, eu mal consigo imaginar um coração que não se entregue á você. Vamos, sorria, que de mansinho eu te roubarei um beijo, não agora, pois já sabe que eu o farei… Depois, quando estiver dormindo, como assim me fascino, e na madrugada serena, qualquer estranho acontecimento ser irrelevante para nossos pés entrelaçados.
Olhe… Vou lhe abrir meu coração devagarinho, só pra você ver… Venha cá venha, meu amor está todo manso pra ti.”
(Source: trilhares)
6 notes
A bela Dormente- Introdução I
” Venha passar a noite comigo. Está frio lá fora, as ruas da cidade já foram todas apagadas e só o que restam são as almas errantes. Elas também sentem frio. Venci o medo e destranquei a porta da varanda. Para caso você decidir vir. Tenho medo das almas errantes. Mas eu também sou errante, só que em corpo e alma, dos pecados aos pensamentos. Eu tenho medo de me matar por erro.
Lá fora eu ouço o vento. Ouvia, pois ele se cala quando me ponho a escutá-lo. O truque é ouvi-lo com os dedos. É respirar fundo, sem essa dor que afoga meu tórax, e deixar o som cantante do vento roçar-lhe os dedos. Daí ele não se assusta. Daí ele ele vem se acomodar. Uma vez guardei o vento em minha cabeçeira. Ele mal reclamava, mas tive de soltá-lo, logo deveria fazer enevoar as cidades. Chove fraquinho. Na verdade é o choro do vento.
Venha ver como ele chora. Sussurre para ele, nós dois gostamos de quando sua voz balança devagar os sentidos, eu mal lembro de respirar, me atrapalho toda e pronto, mais uma de suas causas. Deite ao meu lado, cale essa falsa nostalgia que me cerca. E eu me deixar em teus olhos, todos negros dessa rápida noite, a verdade é que teus olhos estarão dormindo.
E os verei assim. Da minha mais bela dormente, lhe arrancar apenas o brilho negro dos olhos, e de manhã ter as tais estrelas ao meu horizonte. (…)”
(Source: trilhares)